sábado, 30 de janeiro de 2010

"SELVA" Romance (págimas Iniciais).

O DESPERTAR (Capítulo I)

A REMISSÃO dela estava em minhas mãos e, evidentemente, era
isto o que eu mais queria. Mesmo assim, ainda hesitava! Perdê-la, viva,
ainda me parecia mais trágico. A civilização com seus preconceitos por
certo me haveria de roubá-la. O que fazer? A mágoa, decorrente da minha
omissão em ajudá-la, talvez, seria a causa da minha própria morte.
Estava tudo resolvido. Melhor sabê-la viva e distante, para sonhar
com o momento ilusório de reencontrá-la, do que a certeza de jamais vê-la
ou tê-la ao meu lado. Pensei bem e, mais calmo, resolvi esperar um pouco
mais antes de tomar uma medida tão radical como aquela que já me propunha
a fazer. Em seguida, com todo o cuidado, tomei-a em meus braços e fui até
as margens do lago. Ali chegando, banhei-a, na esperança de que suas
águas frias conseguissem baixar sua febre. No entanto, sabia que aquela
providência seria apenas um paliativo. O certo mesmo seria valermos da
penicilina, uma conquista científica do homem, específica para o caso e
impossível de ser encontrada naquele mato.
A tarde daquele dia estava se findando, e as luzes começavam a se
apagar. Ao lusco-fusco que precedia a noite, ouvia-se o piar agourento de
uma coruja. Grilos e sapos iniciavam suas cantorias, enquanto os sons
monótonos das águas evocavam passadas mágoas. Outros animais
principiavam a dar os seus primeiros passos entre as ramagens úmidas
daquela soturna floresta. E, a febre da garota continuava! A nódoa escura
da sua perna parecia mais azulada, e ela delirava...
– Socorro! bradei.
E, enquanto o grito ressoava lá fora, a selva inteira ficava silenciosa!
Era a resposta muda e impassível da natureza que, em toda a sua
imponência, nada, realmente nada poderia fazer para nos ajudar!
O dia amanhecera nublado, cinzento, esfumaçado. Chuva miúda
caindo, esparramando-se na friagem do vasto espaço! Ainda agora, depois
de tudo acontecido, lembro-me do meu desabrido espanto!
Madrugada! Abruptamente, na escuridão do quarto, acordo
emergindo do sono pesado. Calafrios percorrendo todo o meu corpo!
Estava aturdido, transpirando em excesso e desorientado. Naquela ocasião,
não conseguia atinar com lucidez o local exato em que me encontrava.
Tudo isso se transcorreu de uma forma totalmente desconhecida.
Embora, na ocasião, não me fosse imaginável atentar para os motivos dos
meus constantes delírios, poderia admitir ser dono de suspeitas advindas
de anormalidades internas, as quais, pouco a pouco, atormentavam o meu
estado de espírito.
Não, não lhe direi atento leitor, que as permanentes dificuldades
inerentes a meu ofício suscitassem pretextos para as tribulações. Não!
Não afirmo! Também não vejo incoerência em descartar esta probabilidade.
Só para exemplificar cito as constantes viagens, deslocamentos
diários de um lugar para outro, correndo como um louco. Cenários alterados
a cada momento; refeições breves ao estilo espartano e, quase sempre,
nauseabundas, além de, sempre em sobressaltos, continuar dormindo muito
pouco!
Ah! Espere. Ainda não lhe falei de todos os meus tropeços. Havia,
sim, os detestáveis relatórios e, também, a infame previsão de cobertura
das inúmeras cotas de vendas, além da não menos odiosa meta de trabalho
a ser alcançada. Isto tudo sem falar nos desagradáveis e azucrinantes
clientes, sempre, sempre rabugentos ou mal-humorados. Enfim, poupar-
lhe-ei, caro amigo, de maiores detalhes sobre estes fatos e a mim mesmo do
desgosto em relembrá-los, quem sabe por julgá-los supérfluos ao juízo
desta narrativa ou, mesmo, porque tudo isso faz parte de um longínquo
passado, o qual, certamente, como verá, mostrar-se-á irrelevante para o
desenlace dos acontecimentos que se seguirão.
Saiba, apenas, que não só o trabalho me angustiava, mas, do mesmo
modo, o cerceamento da minha condição de vida. Qualidade de vida? Está
brincando? Não havia! Era igual a zero.
A sociedade hodierna torna as pessoas vítimas de uma doença
chamada solidão, cuja raiz não se pode creditar às conseqüências
patológicas de um afastamento absoluto do ser humano, mesmo porque,
dentro do convívio contemporâneo, as pessoas, ainda que no meio da
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