sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desconhecido; Não é Sinônimo de “Sem Talento”.

Desconhecido; Não é Sinônimo de “Sem Talento”.
Pode não ser; porém para as editoras brasileiras o termo “desconhecido” chega até ser mesmo sinônimo de “sem talento”! É que, o preconceito e exigências neste setor são tão grandes, que se dão ao luxo de escolher os autores e até a temática para publicar; por exemplo: no momento existe uma grande demanda por livros de auto-ajuda, esotéricos e infantis; livros adultos, poesia e romances? Nem pensar! Isso não publica mesmo, nem a pau!

Resultado é que, muitos autores, cansados em levar portas à cara, partem para a produção independente, a qual certamente estará fadada ao fracasso; e digo isso, porque sei como é difícil este caminho das pedras.
Produzir a obra, fazer todos os gastos de pré-impressão, levar ao prelo e depois, com o livro à mão, vender a quem? Por incrível que pareça a pior parte do processo não é escrever a obra, e sim divulgá-la. Alguns até conseguem, pedindo, mendigando de porta em porta para que fiquem com seus livros! Mesmo assim, o resultado final é irrisório.

Outro problema grave é até um contra-senso, pois temos de fato poucos leitores, devido à notória apatia dos brasileiros pela leitura, mas estamos registrando um numero enorme de gente que escreve. Ou seja, leitores de menos e autores de mais! Uma conta indigesta que jamais ira se fechar...

Por outro lado, de onde se esperaria a salvação, dos governos, em todos os seus níveis, esta nunca chegará. Não existe nenhum projeto, que se saiba, incentivando os novos e talentosos autores que apareçam. Existem verbas para cinema, futebol, olimpíadas, carnaval e tudo mais; porem para literatura, nada!

Assim, estamos fadados a conviver por mais alguns séculos com os “monstros” da literatura do passado como: Machado de Assis, Castro Alves, Aloísio Azevedo, Jorge Amado e tantos outros que jamais serão superados, ou mesmo igualados por novos autores, simplesmente porque estes, nunca existiram!

É sabido que têm alguns novos autores vendendo muitos livros, todavia vender livros é uma coisa, fazer obras literárias de qualidade, que deixem marcas para sempre, é outra!

Tive um desses dias à oportunidade em fazer comentário sobre a obra de um novo e desconhecido autor, já que tenho por hábito garimpar livros, chamado Euclides Neto, cujo romance intitulado “Os Magros”, é uma obra de arte e, certamente muita gente que o leu ficou impressionada com o trabalho.

Hoje, deixando de lado esses percalços de autores, quero lhes falar de outro ilustre desconhecido, trata-se de Ruy Bruno Bacelar de Oliveira, que escreveu: “Canudos: O Assassinato da Liberdade”; onde logo na apresentação do livro temos um comentário crítico de Mozart Tanajura, onde ele diz:

“Depois de Euclides da Cunha nada se escreveu que superasse “Os Sertões”. Tudo que veio depois foi arremedo do que dissera o grande escritor nacional. Muitos autores ficaram borboleteando em volta do assunto, quando não se inclinaram pela interpretação folclórica, que é de fácil assimilação, mas infelizmente, não nos dá conta da dimensão exata dos fatos sociológicos que levaram os habitantes de Canudos a lutarem, com unhas e dentes, até a morte de todos”.

O Livro começa contando que em 1897, foram assassinados milhares de brasileiros, por um exercito de mais de seis mil homens e que o único crime deste povo foi à crença na liberdade de ser feliz no lugar da miséria.

“Canudos: O assassinato da Liberdade” é um livro com quatro histórias: a de Vicente Mendes Maciel, o líder; as expedições na luta contra os jagunços; a história de uma viagem que o autor realizou em 1987 a região de Canudos; e a geo-história da região de Canudos.

A intenção do autor, conforme ele mesmo nos conta, foi participar da recuperação histórica das lutas sertanejas no Brasil, com o propósito de alcançar alguma forma de compreensão das mesmas e seus efeitos sobre nossa sociedade.

Antonio Mendes Maciel (o Conselheiro) é o grande personagem desta obra, considerado pelo autor como o maior vulto da história do Brasil, maior que Tiradentes, Caxias, Frei Canecas e tantos outros, por dirigir a maior revolução que se fez neste país, afirmando que a guerra de Canudos serviu para nos mostrar que o inimigo para ser levado a sério, está aqui dentro, é brasileiro, corrupto, associado com outros brasileiros, dirigindo nossas instituições ou de anel e diploma na mão perseguindo as pessoas e roubando o país.

O autor fazendo uma apreciação sobre Antonio Conselheiro, considerado pela história como um fanático messiânico e louco, diz-nos que ele era um homem culto e que não era um socialista, jamais ouvira falar no “O Capital” de Marx, porém estava familiarizado com a obra de Thomas More, “A Utopia”. Entretanto as idéias socialistas do Conselheiro nasceram do conhecimento das necessidades, nas massas espoliadas do sertão.

O livro assegura que em Canudos havia uma ética baseada na justiça social e no sentimento de liberdade, solidariedade, dignidade, integridade, igualitarismo é fé. O propalado fanatismo estava a serviço do progresso e da felicidade do homem. O povo de Canudos não se sujeitava à autoridade predatória, como não devia também não pagava impostos.

A cidade de barro e taipa do Conselheiro prosperava; não havia mendigos, assaltantes, fome nem desemprego. E não havia exploradores nem explorados. Todos trabalhavam na terra. Canudos, segundo o autor da obra, representou os grandes ideais perseguidos há séculos pelo homem, em busca de sua felicidade e, estranhamente o destino escolhe na Bahia, numa das regiões mais atrasadas do mundo, o palco para se desenrolar a luta contra as forças do mal. Canudos era uma nação livre dentro de uma nação prisioneira do capitalismo internacional e do capitalismo selvagem brasileiro.

Quem leu a obra “Os Sertões” certamente já devem ter conhecimento desta história, todavia o estilo de Euclides da Cunha, fantasioso e grandiloqüente, não nos dá a dimensão exata dos fatos sociológicos.

O Antonio Conselheiro de Ruy Bruno Bacelar de Oliveira é um homem humano, com suas grandezas e misérias, revolucionado e não revolucionário, sem ranço de casticismos, sem figuras literárias ou pernosticismos científicos; um profeta sem santidade. Um herói sem estátua.

O autor deste livro foi meu amigo, convivemos em palestras, viagens, trabalhos e rodadas de uísque. Certamente não era um homem comum; diretor da Engeo Geologia e Geofísica, possuía cursos de graduação em geologia e geofísica no Brasil e pós graduação nos Estados Unidos e Japão. Foi professor universitário e membro da Academia Conquistense de Letras, Academia de ciências de Nova York, Sociedade Brasileira de Geofísica e da Sociedade de Geofísicos de Exploração Mineral & Engenharia (USA).

Um belo dia (aziago, talvez) se foi, deixou-nos sem ao menos ter tempo em se despedir; um homem apaixonado por revoluções populares no Brasil, não viveu para conhecer um novo mundo, melhor e mais humano, com o qual tanto sonhara! Possa, digo eu, os seus livros, escritos com tanto trabalho e dedicação perdurarem na memória de todos que os lerem!

Transcrevo aqui as apreciações finais de Mozart Tanajura na apresentação da obra: “Por tudo isso, Canudos: O Assassinato da Liberdade é um livro que fica para ser lido, meditado, guardado. Auguro-o uma vida longa e uma leitura constante, que só alcançam as obras de grandes autores”.

Diante de tudo isso, Ruy Bruno B. de Oliveira merece ser lido por qualquer historiador sério, estudantes e todos aqueles interessados na verdadeira história do Brasil.! E, talvez, obra assim, de autores ditos desconhecidos, possa ajudar a tirar as viseiras de burros das editoras brasileiras, que só enxergam à frente, no sentido de analisarem com mais interesse as obras que diuturnamente lhes chegam às mãos.

Obra literária de qualidade é como um precioso diamante, encravado em meio às rochas, não é fácil encontrá-lo, porém quem o garimpa com persistência e dedicação, certamente será grandemente recompensado!

elandi@ibest.com.br
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